As praias do extremo oeste cearense confirmam seu papel vital na preservação da vida marinha. Em um ciclo marcado por mobilização comunitária e trabalho de campo incansável, 139 ninhos foram protegidos e cerca de 14 mil filhotes alcançaram o oceano em segurança, dos quais, apenas um ou dois chegarão à idade adulta.
Entre os municípios de Camocim e Barroquinha, as areias do litoral do Ceará voltam a testemunhar um espetáculo silencioso, porém grandioso: o nascimento de milhares de tartarugas marinhas. A temporada reprodutiva de 2025/2026 encerrou-se, consolidando a região como um dos pontos mais estratégicos para a conservação da biodiversidade marinha no estado.

O monitoramento da área é realizado desde 2014 pelo Projeto FaunaMar. Nos últimos dois anos, as ações ganharam escala com a parceria da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
Segundo Kesley Paiva, coordenadora do FaunaMar, o ciclo reprodutivo no extremo oeste se estende de dezembro, momento em que as primeiras fêmeas aportam nas praias para a postura dos ovos, até setembro do ano seguinte, quando os últimos filhotes ganham o mar.
“Esse trabalho envolve desde a identificação e sinalização das desovas até o manejo seguro e o acompanhamento dos recém-nascidos rumo à água”, disse a bióloga.
Diversidade em alta e apoio comunitário
Ao longo do período, pesquisadores identificaram a presença de três das cinco espécies de tartarugas marinhas que frequentam o litoral brasileiro:
- Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), a mais frequente na região;
- Tartaruga-verde (Chelonia mydas), popularmente conhecida como aruanã. No Brasil, a espécie desova principalmente em ilhas oceânicas, como Trindade e Atol das Rocas.
- Tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea), a menor tartaruga-marinha do mundo.
Para além dos números expressivos, um dos pilares do resultado obtido é o engajamento direto dos moradores e frequentadores locais. A comunidade tem atuado no repasse de informações sobre novas desovas, no auxílio à proteção dos ninhos e na conscientização de turistas sobre o ecossistema praiano.

Ameaças no horizonte e o valor da ciência
Nem só de vitórias é feita a conservação costeira. Durante as rondas, a equipe do FaunaMar mapeia constantemente os fatores de risco que colocam em xeque a reprodução das espécies. A poluição luminosa, que prejudica filhotes e fêmeas, o tráfego irregular de veículos na faixa de areia, o acúmulo de lixo e a especulação imobiliária sem planejamento seguem como os principais desafios a serem enfrentados.
Os dados científicos colhidos em campo servem como subsídio essencial para a formulação de políticas públicas de proteção ambiental.
“Proteger as praias é fundamental para garantir condições adequadas à reprodução das espécies”,
reforça Kesley Paiva, destacando que a preservação do ecossistema marinho é o único caminho para assegurar o futuro desses animais.
